Eles não querem a gatonet


Arroba

Atentos à demanda não atendida pelas operadoras nas periferias, pequenos provedores e lan houses aguardam entrada da Telebrás no mercado para comercializar banda larga para os consumidores de baixa renda

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Lan houses da periferia enfrentam concorrência desleal com a informalidade

O segurança José Benaldo gasta até R$ 100 por mês com telefone para permitir que suas duas filhas acessem a internet discada e usem o MSN, o Orkut e façam pesquisas escolares.

O valor é suficiente para contratar um plano de banda larga, mas ele não o faz por uma única razão: a oferta de serviços de internet rápida é escassa – para não dizer inexistente – na Brasilândia, bairro pobre da periferia de São Paulo, onde mora.

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“Se os custos baixarem, podemos oferecer um preço melhor para os consumidores de menor renda”
Carlos Eduardo Sedeh > Diretor da Megatelecom

“Não tenho banda larga porque nunca me ofereceram”, afirma Benaldo. “Se tivesse oportunidade, contrataria.” O caso de Benaldo não é exceção. Os moradores de muitos bairros da periferia paulistana e de outras grandes cidades brasileiras sofrem com a dificuldade para assinar um serviço de banda larga.

O problema ocorre porque as operadoras privilegiam regiões de maior poder aquisitivo, onde podem cobrar valores mais elevados. Os pequenos provedores, por sua vez, nem sempre conseguem comercializar o serviço nessas regiões porque, como não possuem rede própria, precisam se adequar aos preços estipulados pelas operadoras para o uso da infraestrutura.

Em meio a esse impasse, resta aos consumidores da periferia,  na maior parte das vezes,  a internet discada, mais lenta, ou a “gatonet”, as conexões clandestinas que podem ser adquiridas a módicos R$ 30 ou R$ 40 por mês.

De olho nessa demanda não atendida, os pequenos provedores tentam ingressar no negócio, mas esbarram, segundo eles, no alto valor que as companhias telefônicas cobram pelo link de acesso.

É por isso que eles enxergam na Telebrás, a estatal recriada no final do governo Lula envolta em polêmica, a chance para viabilizarem a prestação do serviço. A estatal pretende vender infraestrutura de rede no atacado a preços menores do que os praticados atualmente no mercado, numa tentativa de estimular a concorrência. Essa medida se insere no contexto do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL).

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“As operadoras priorizam regiões com maior densidade populacional e poder aquisitivo”
Rogério Santanna, Presidente da Telebrás

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O início das operações da Telebrás, que estava previsto para dezembro, foi adiado para abril  e não há garantia de que esse prazo será cumprido. Com valores inferiores no atacado, os pequenos provedores  veem condições de atender a uma enorme demanda reprimida formada, principalmente, por consumidores da classe C nas periferias e cidades menores.

Só para dar uma ideia da expectativa dessas empresas, mais de 265 provedores já se cadastraram no site da Telebrás como interessados na contratação da rede da estatal. O Brasil possui cerca de três mil pequenos provedores de internet.

Os números comprovam que existe, de fato, um grande mercado não explorado. De acordo com dados do Centro de Estudos sobre a Tecnologia da Informação e da Comunicação (Cetic), cerca de um terço dos brasileiros possui computador em casa, mas apenas 24% contam com internet.

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“Se o governo me der infraestrutura, em dois dias arrumo 50 clientes”
Marco Antônio Serra, Dono de lan house

Essa diferença mostra a existência de um mercado potencial de, aproximadamente, cinco milhões de pessoas. O número é superior à base total de clientes de banda larga da Oi, por exemplo, que conta com 4,3 milhões de consumidores.

Um dos candidatos a ofertar internet rápida a esse amplo mercado desassistido é Marco Antônio Serra, proprietário de uma pequena lan house no bairro de Itaim Paulista, também na periferia paulistana. “Se o governo me der essa infraestrutura, em dois dias arrumo 50 clientes”, afirma o microempresário.

Segundo Rogério Santanna, presidente da Telebrás, a intenção é permitir que pequenos empreendedores como Serra ingressem no setor. Antes disso, no entanto, será preciso vencer uma lógica cruel de mercado.

“As operadoras dão prioridade às regiões com maior densidade populacional e poder aquisitivo”, afirma Santanna. É por esse motivo que a Telebrás quer estimular os pequenos provedores na disseminação da banda larga – afinal, muitos deles já estão acostumados a atender regiões remotas e pobres.

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As lan houses são boas opções para esse propósito, na avaliação de Santanna. Esses estabelecimentos hoje são responsáveis por 46% dos acessos à internet no Brasil e também ocupam um papel importante no PNBL.

O governo estuda maneiras de torná-las provedoras de acesso à internet rápida. “Existem mais de 100 mil lan houses no Brasil. Elas podem ser potenciais aliadas para propagar a banda larga”, afirma Santanna.

O preço que a Telebras pretende cobrar por megabit – R$ 230 – pode atrair as lan houses e os pequenos provedores. Para comparar com as cifras estipuladas pelas grandes operadoras:  nas capitais do Sudeste o megabit pode custar entre R$ 200 e R$ 400, por exemplo, mas em Manaus o provedor precisa desembolsar até R$ 4 mil.

“Com a entrada da Telebrás, a situação vai melhorar bastante, principalmente no interior, onde o preço cobrado pelas operadoras é inviável para o provedor”, afirma Rafael de Sá, sócio-diretor da Vetorial.net.

A empresa atende cinco mil residências na cidade de Rio Grande, na região sul do Rio Grande do Sul. Sá, aliás, diz que só a notícia do ressurgimento da estatal já provoca efeitos.

“As operadoras passaram a oferecer preços reduzidos por meio de planos de fidelidade para não perder o cliente com a chegada da Telebrás”, diz Sá, que  também é presidente da InternetSul, associação que reúne os pequenos provedores do Estado.

Para a Megatelecom, empresa que atua nas cidades de Barueri e Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, a entrada da Telebrás seria a chance de expandir a operação para outras cidades e atender a um mercado que não para de crescer, o da classe C.

Atualmente, o provedor conta com dez mil clientes residenciais, a maioria no bairro de Alphaville, que concentra condomínios de alto padrão na região. “Se os custos baixarem, podemos pensar em um preço melhor para os consumidores de menor renda”, diz Carlos Eduardo Sedeh, diretor comercial da Megatelecom.

Segundo ele, mesmo em cidades maiores do interior paulista, como Jundiaí e Sorocaba, a demanda por banda larga é maior do que a capacidade de oferta das grandes empresas. “Só que os custos para expandir são proibitivos”, afirma Sedeh.

Do lado das operadoras, a justificativa para os preços elevados praticados atualmente deve ser buscada na demanda. “Em lugares onde há poucos interessados, a concessionária tende a cobrar todo o custo de operação de poucos clientes, por isso o preço aumenta”, diz João Moura, presidente da Telcomp, associação que reúne as empresas de telecomunicações e as concessionárias de telefonia. De qualquer forma, Moura acredita que, para haver uma concorrência eficaz, deveria haver regulamentação na política de preços e transparência na oferta.

Hoje, as pequenas empresas de telecomunicações respondem por cerca de dois milhões de conexões. Segundo o presidente da Associação Brasileira de Pequenos Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrappit), Ricardo Lopes Sanchez, sem esse segmento de empresas vai demorar muito mais tempo para que a meta do PNBL, de levar banda larga para 40 milhões de domicílios até 2014,  seja atingida. “Nenhum outro país tem um número tão grande de pequenos provedores”,afirma Sanchez. “Então, temos de aproveitar essa nossa característica.”

Fonte: IstoÉ Dinheiro – 16/02/2011 Por Rodrigo Caetano

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