Cuidado com o “TÉCO” em informática!


Por João Marcello Pereira

“Ao contrário do que se pensa o computador não é objeto que, uma vez comprado novo, “viverá” por anos sem defeitos. Todo computador, como qualquer outra máquina eletrônica ou não, necessita de manutenção periódica como limpeza física e lógica, atualizações e outros. Para isto, há a necessidade de consultar um técnico qualificado e honesto, pois não existe coisa pior do que ser enganado, principalmente, se esse engano é um prejuízo de algumas centenas de reais por conta da irresponsabilidade de algum “profissional”.

Muitos são os “técnicos” de informática que esbanjam absurdos quando se trata de energia elétrica – O aterramento é o maior fator de erros desses “profissionais”. Por falta de conhecimento, que exige considerável formação técnica ou superior, grandezas físicas como tensão, corrente, resistência, potência elétrica são a mesma coisa quando se trata de fazer o computador funcionar. Vejamos alguns absurdos: Aterramento “interno” feito de um clip de papel conectando o neutro e terra, garrafas PET cheias de água sobre o gabinete para economizar energia, condutores (fios) mal dimensionados para a instalação elétrica, e muitas outras soluções “baratas e inteligentes”.

Outra coisa que aterroriza é a forma como o “técnico” faz o diagnóstico do computador. É tudo no “olhômetro” e na sensibilidade “paranormal” (poder ninja) adquirida ao longo de anos de experiência (ou experiências com máquinas dos outros). O mais interessante disso é a solução-padrão adotada: formatar o HD e instalar o Windows. Tudo bem que isto é uma solução, mas sem um diagnóstico preciso do HD há risco de dano à peça e perda de dados. Outro fator duvidoso é o “técnico” saber exatamente uma solução imediata para qualquer problema da máquina, ou seja, se está lenta é vírus ou memória; o Windows não “abre” é o HD; a máquina não liga é placa-mãe queimada; computador não aceita as configurações, aparece uma tela azul e ainda fica “apitando”, chuta que é macumba!

Outro potencial prejuízo financeiro ocorre quando o entendido de informática costuma instalar dezenas de programas piratas na máquina do cliente, principalmente de segurança, sem atentar para o fato que as empresas fabricantes de software (Symantec fabricante do Norton antivírus, por exemplo) possuem mecanismos via internet que descobrem se o programa instalado no computador é pirata ou não, permitindo bloquear atualizações ou ainda multar a empresa/usuário por pirataria.

Profissionais assim são conhecidas no mundo da informática como TÉCO em informática por realizarem somente serviços ruins. O TÉCO é um artista nato, sempre resolve as coisas no “jeitinho” e tem mil e uma soluções “mágicas” para tudo quanto é problema ao melhor estilo McGyver – um chiclete serve como fita isolante, lâmpada incandescente de 100W é multímetro, pedaço de chinela havaiana é suporte da placamãe, e por aí vai. Ou seja, é doutor honoris causa em gambiarra, não possui qualquer suporte científico ao jeitinho empregado e seu maior trunfo é saber “tudo” de informática sem nunca ter feito um curso de capacitação – é o tipo totalmente prático sem nenhum conhecimento teórico. Uma conseqüência desse poder autodidata é a famosa lábia (ou “queixo” como se diz aqui no Piauí) aplicada para enganar o cliente em qualquer situação, seja na solução mágica do problema ou fazer o cliente assumir o prejuízo de uma irresponsabilidade.

Muito cuidado com o TÉCO, e mais cuidado ainda com os seus serviços e conselhos. Para não ser enganado, sempre consulte a indicação de algum conhecido e analise como ele trabalha. Mesmo sem conhecimento técnico, o usuário pode evitar dor de cabeça observando algumas características típicas do TÉCO Professional:

– Nunca tem ferramentas apropriadas e quando tem não sabe usar – o principal erro é nunca ter um multímetro para avaliar a energia elétrica ou ainda medir 220V na escala errada;

– Nunca verifica as instalações elétricas e o ambiente no qual o computador será ou está instalado em relação à presença de campo magnético, campo elétrico, infravermelho, poeira e temperatura ambiente;

– Nunca faz diagnóstico através de software ou qualquer outro equipamento de teste, sempre aposta no “desconfiômetro” ou “olhômetro”;

– Inventa mil e um defeitos de nomes esquisitos sem dar melhores explicações

– “o hd está sem bufferamento linear ao nível de máquina”.

– Sempre instala mil e um programas piratas (antivírus, programas de contabilidade e gerenciamento financeiro) no computador sem o devido conhecimento do cliente, afirmando que trabalha só com os “melhores” programas que existem no mercado;

– Nunca faz um relatório dos problemas encontrado e menos ainda do serviço realizado, e quando faz só ele entende;

– Desconfie do “TÉCO” que faz aterramento, levanta muro, é carpinteiro, conserta placa-mãe e ainda toca pagode. Bons profissionais são específicos na sua área;

– Sempre tem o valor do serviço na ponta da língua mesmo sem nunca ter visto o estado do computador.

Tenho visto nos jornais propagandas de “técnicos” que em duas horas “ajeitam” qualquer computador ao preço de R$ 20,00. Sinceramente não sei como isso é possível, pois somente no diagnóstico e relatório gasto entre 1,5 a 2h, e para realização do serviço necessito em média de 4 horas. Pior ainda acontece quando uma peça está queimada e o TÉCO já possui na mão outra disponível ou “similar” – é outra ou será a mesma peça modificada intencionalmente como sendo nova?

Pensando bem, o TÉCO é também fruto da “teconicidade”* do próprio cliente, em querer sempre o menor preço por um serviço – preço é proporcional à qualidade. Como o barato via TÉCO sempre sai caro, procure um bom profissional capacitado em cursos de montagem e manutenção de computadores, e de experiência comprovada. Não fuja desse conselho, pois a próxima vítima pode ser você.

* Estado da arte de querer resolver as coisas da maneira mais legal, rápida e barata possível.

Para mais informações:

Notícia: Técnico de informática trapalhão tenta golpe (e fracassa) contra cliente nos EUA – http://ur1.ca/epxu

Artigo: OAB da Informática pode ser criada. Isso é bom? – http://ur1.ca/epxm

Entrevista: O Futuro do Técnico de Informática – http://ur1.ca/epxg

Artigo: A mochila do técnico de informática – http://ur1.ca/epws

Artigo: Futuro do técnico em informática – http://ur1.ca/epwt

Autor:

JOÃO MARCELLO PEREIRA é graduado em física (UFPI) e ciências da computação (UFPI), técnico em eletrônica (CEFET-PI), e especializando em segurança de redes de computadores (FACID). É profissional de informática, inventor, e professor de física (UAPI), informática (SENAC-PI), matemática e eletrônica.

Fonte:  Revista Espírito Livre – Novembro 2009 – Nº 8

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